quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

A arte do poder

No início deste ano, o maestro John Neschling foi demitido da Osesp – Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo.

No cargo desde 1996, o maestro foi convidado pelo então governador Mario Covas a montar uma Orquestra Sinfônica no estado. Na verdade, a orquestra já existia, mas não era dada a atenção necessária para atingir um alto nível de repercussão.

Em quase 13 anos de atuação do maestro, a Osesp, hoje, ganha prêmios, apresenta-se a platéias com lotação máxima e ainda integra a lista da Gramophone – aclamada revista britânica de música clássica, editada desde 1923 – como uma das três orquestras do mundo em que se deve prestar atenção.

Podemos classificar esse fenômeno como um case de marketing ou uma excelência em administração, mas o que não podemos é tirar o mérito do maestro John Neschling.

Durante seu tempo de permanência no cargo, o maestro gerou diversas polêmicas, seja na contratação ou demissão de profissionais, seja nos tradicionais desentendimentos, mas a linha que liga todas essas polêmicas é, fatalmente, a sua dificuldade na gestão de pessoas.

A qualidade técnica da Orquestra é indiscutível. O resultado de seu trabalho é visível e digno de ser aplaudido em pé, porém, músicos, políticos, maestros e assessores já reclamaram demasiadamente sobre a liderança do maestro.

Será que se Neschling respeitasse a hierarquia, não ofendesse as pessoas com quem trabalha e tivesse mais sensibilidade para lidar em suas relações profissionais, o resultado seria diferente? Seria pior?

Antes de vir à tona toda a polêmica da Osesp, eu imaginava a classe artística – principalmente os músicos – como pessoas de mente aberta, que se colocam no lugar do outro, sem egoísmo ou falsidade. É difícil ver um trabalho tão genial como o de uma orquestra e pensar que, para chegar até lá, houve discussões ferrenhas, lágrimas, momentos de nervosismo e nenhum perdão.

Eu tinha a arte como uma área mágica, o resultado de um processo tranqüilo, com pessoas que querem levar um sentimento bom ao público que lhes assiste, mas percebo que isso não passa de uma fantasia, uma ideologia utópica, assim como o incessante pedido que eu faço ao cortar meu bolo de aniversário ou ao avistar a estrela Dalva.

Apesar disso, eu ainda acredito que tudo o que acontece, é por algum motivo. Se o maestro foi demitido para ele rever a forma que lida com as pessoas ou se foi, simplesmente, para eu rever meus conceitos sobre arte, isso não saberemos. Talvez tenha sido por um único motivo, talvez por mais do que os citados acima. Mas o que fica é a reflexão sobre o poder e que, conforme é citado no livro Madame Bovary: “Não se deve tocar nos ídolos: a duradoura acaba ficando em nossas mãos”.


Dica CultCultural

A Osesp abre a temporada de 2009 na Sala São Paulo, no dia 5 de março, às 21h, sob a regência do maestro Yan Pascal Tortelier.

Programação: http://www.osesp.art.br/novo/estatico/programacao2009.aspx

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